Rocket Fuel

Voz do Sócio

Petraglia, ladrão da minha paixão.

Petraglia, ladrão da minha paixão.

Por Robson Vicente Ribas

"Vou te contar uma coisa: quando eu era criança em Curitiba, não tinha como não ser coxa-branca. Era o time campeão brasileiro, o do maior e melhor estádio, o que competia entre os grandes. O Colorado, coitado, era um arremedo do que foi o Ferroviário. O Pinheiros... bem, nunca torci por piscinas. Não tinha mesmo como não ser Coritiba. Exceto por uma razão.
Havia o Atlético.
O Atlético era diferente. Era brioso, era o improvável, era o time do povo, do carrinheiro, da faxineira, da luta inglória, do nunca desistir. Eram um bando de fanáticos que estavam léguas atrás do Coritiba e que nos fazia nos sentirmos parte de algo maior. Era Davi x Golias, era desafiar o sistema. Cada Atletiba ganho era uma glória, nos orgulhávamos dos nossos recordes de torcida, de sermos maiores em paixão e em massa do que eles. Os poucos títulos então... eu tive sorte. Vi o time campeão várias vezes até nascer o Paraná e enquadrar a dupla. E depois veio Petraglia.
Eu li a série de reportagens com ele, falando sobre como a paixão nos escraviza. De como a torcida não entende nada de futebol, que é sim um grande negócio e de como ele não sabe por que a moderna Arena consegue ficar mais vazia que o velho Joaquim Américo. Eu é que te digo, Petraglia: você não entende nada de soccer business, como disse aquele coxa-branca.
Primeiro que, sejamos honestos, nesses anos todos, o Atlético no máximo empatou com o Coxa. Conseguimos nossa alforria em 2001, com a estrela dourada que tanto nos afrontava no peito do rival. Em confrontos diretos ainda estamos atrás. Em títulos, até mesmo se contar o período que ele mesmo gosta de considerar, estamos atrás. E hoje acordei e fui ver a classificação do campeonato, vejam só, hoje, estaríamos lado a lado na segundona no ano que vem. Não que isso pareça importar ao nosso presidente.
Não sei bem em qual momento, acho que 2002, a coisa se perdeu. Levamos o clube nas costas por 78 longos anos, na base da paixão, movidos por um ideal maior. Quando chegamos ao ápice, na hora da maior glória, o clube rachou. Parece que Petraglia quis ter tudo para ele. Esqueceu-se de gente como Valmor Zimmermann, Ênio Fornea, Ademir Adur, Marcos Isfer e tantos outros que o ajudaram até aquele ponto. Esqueceu-se da torcida que foi o defender de acusação de corrupção no Rio, dos anônimos que lotavam a Arena naqueles anos mágicos, entre 1996 e 2001. O tal novo Atlético, que Petraglia gosta de celebrar, nascia ali, frio e distante de sua gente.
Parece incrível que alguém tão inteligente para os negócios seja tão desprovido de inteligência emocional. Ainda que ele tenha confessado fazer análise, é toda uma torcida que hoje precisa do divã. O Atlético não sabe mais quem é. Seu dono, já soberano no clube sem ninguém que o questione após isolar as outras lideranças, quer um público que não existe em lugar algum: que pague, consuma e não reclame de nada, nem dos resultados ruins. Seu povo quer apenas pertencer a algo maior, na esperança de ver a velha paixão incendiar a tal estrutura que impressiona cada jornalista do eixo que pisa em Curitiba à convite do clube, sem o mesmo compromisso com o sucesso dele que os da cidade, esses sempre pisados e rejeitados.
Deixa eu falar uma coisa pra você, Petraglia: não vai dar certo. Não é reduzindo o preço dos ingressos para sessenta mangos (como se fosse de fato barato) que você vai levar o povo pro estádio. É fazendo esse mesmo povo se sentir parte da vida do clube. Seja quando reclamarem das cadeiras cinzas, seja considerando que somos e sempre fomos uma torcida popular. Hoje a coisa tá feia no Brasil, talvez o senhor não saiba, mas a economia quebrou de novo. Pra fazer o cara gastar com o Atlético, vai ser preciso muito mais que apenas dizer que baixou preço e mesmo assim ninguém vai ao jogo.
Vai ser preciso lamber as feridas, pedir desculpas públicas, entrar na cabeça do atleticano (nem foto de você com a nossa camisa eu já vi por aí, presidente) e entender que mesmo sendo um negócio, o futebol é uma paixão. E o seu negócio é vender essa paixão para nós. Você está errado, pode acreditar, leve isso ao seu analista. O seu Atlético não decola por que você esqueceu do principal: do torcedor. Hoje, é apenas o ladrão da nossa paixão".

Postado por: JUAREZ RIBEIRO TABORDA em 30 de outubro de 2018 15:18